Eu contra o mundo
Quem disse que eu não posso?

Quando ouvimos ou usamos a palavra “preconceito”, normalmente ela se refere a algo ruim. A um sentimento que nos torna menos humanos. Na verdade, o preconceito é natural. E fundamental na organização da nossa espécie, que só sabe viver em sociedade. “Para um grupo existir, é preciso delimitá-lo. O que facilita o encontro e dá sensação de segurança”, afirma René Gertz, professor de história da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. E, para definir um grupo, é necessário excluir os diferentes. Julgá-los como ameaça, mesmo que sejam totalmente desconhecidos. Fazemos isso sem pensar – e desde que nascemos.
Formar uma opinião sem o devido exame crítico não é, por si só, algo ruim. Se você passa por alguém na rua, logo cria uma ideia sobre seu caráter e intenções, baseado apenas na sua fisionomia, no jeito que anda, na roupa que veste. O problema é quando paramos por aí. Quando nos negamos a conhecer o diferente e nos surpreendermos com o que, em princípio, era impossível enxergar.
Em outras palavras, reconhecer que temos tendência ao preconceito não pode ser justificativa para seu lado criminoso: a discriminação. Está na Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. E também na nossa Constituição: “Todos somos iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza”. Contrariar essas determinações é impedir que os seres humanos atinjam toda sua potencialidade, sejam felizes e contribuam para construir uma sociedade melhor, na união de todas as suas diferenças.
Essa barreira é enfrentada diariamente por muita gente por variados motivos. Superá-la pode ser a luta de uma vida inteira. Mas vale a pena todos os dias. Confira, a seguir, histórias incríveis de pessoas que batalham com todas as suas forças para provar, simplesmente, que merecem as mesmas chances de todo mundo.
Para ser grande, sê inteiro
Kênia Pottes, 56 anos, São Paulo
Foram 25 “nãos” antes de conseguir o primeiro emprego. Mesmo apresentando seu diploma do curso de enfermagem da Pontifícia Universidade Católica de Sorocaba (SP), Kênia era recebida com desconfiança pelos entrevistadores. Ela sabia bem qual era o motivo de tamanha suspeição: seu 1,25 metro de altura. Kênia foi a primeira de sua família a nascer com acondroplasia, um dos tipos mais comuns de nanismo, que atinge uma em cada 15 mil pessoas. O tão esperado “sim” veio na Beneficência Portuguesa, em São Paulo. Seguido de um alerta: “O hospital não está adaptado para você. É você quem terá de se adaptar”. Kênia tirou de letra. Para examinar os pacientes, usava a escadinha da própria cama. Com truques assim, trabalhou lá por 25 anos. “Sempre precisei provar que era melhor do que os outros. Isso me fez perfeccionista”, diz. Seu marido, Hélio, também é anão. Publicitário aposentado, diz que sofreu menos que a esposa: “Tive a sorte de trabalhar com pessoas com a cabeça mais aberta”. O casal tem uma filha, Maria Rita, de 19 anos, que faz faculdade de zootecnia. Da mãe, ela herdou a estatura e a fibra: “Você só é pequena na altura” foi a lição que sempre ouviu.
Vença também Kênia e Hélio são responsáveis pela Associação Gente Pequena, organização não governamental que luta pelos direitos dos anões. Se você precisa de ajuda para vencer o preconceito, pode falar com eles por meio do site: www.ser.anao.nom.br

Coisa de homem
Irlan Santos, 20 anos, Rio de Janeiro
O som das sapatilhas estalando no chão da sala ao lado chamou a atenção de Irlan. Aos 10 anos, ele fazia um curso de teatro num programa educacional do governo do Rio de Janeiro. Mas, naquele dia, percebeu que queria era dançar. Começou no sapateado. O professor indicou balé para que ele se aperfeiçoasse. Mas o garoto, que morava no Complexo do Alemão, na periferia do Rio, não tinha como pagar as aulas. Então tentou uma bolsa no Centro de Dança Rio, uma das principais escolas do país. Conseguiu. O pai não gostou nada de ver o filho de collant e sapatilhas, nem das piadas dos vizinhos. “Eu também achava que balé era coisa de menina. E não imaginava que pudesse ser uma profissão”, confessa Irlan. Só dois anos depois seu Irenildo aceitou ver uma apresentação do filho. Nunca mais esqueceu. “Foi muito bonito. Até chorei”, conta. A família fez rifas, pediu dinheiro aos amigos e ao governo, e Irlan foi passando por uma série de escolas e peneiras. Há três anos, foi chamado para estudar no American Ballet Theatre de Nova York, nos Estados Unidos, com tudo pago. Ao entender a beleza dos sonhos de Irlan, Irenildo tornou-se seu maior incentivador: todo dia, às 8h em ponto, ele liga para o filho, para despertá-lo e lhe desejar uma boa aula. E Irlan, mais leve com o apoio que tem, salta cada vez mais alto.
Vença também Confira algumas escolas de dança voltadas para homens:
• Abamba, em Campinas (SP): Tel.: (19) 3289-0651.
• Cia. Masculina Jair de Moraes, em Curitiba: Tel.: (41) 3667-3876.
• Escola de Dança de Paracuru (CE): Tel.: (85) 3344-2090.
• Homens no Balé, em Campo Grande: Tel.: (67) 3355-7730.

Promessa de vida
Luislinda Valois, 69 anos, Salvador
“Desista de estudar e vá fazer feijoada em casa de branco.” Luislinda ouviu essa frase quando tinha 9 anos, de um professor, ao revelar que não tinha dinheiro para comprar o material escolar. Na mesma hora, respondeu: “Vou estudar até virar juíza e prender gente como você”. Seus pais, uma lavadeira e um motorista de bonde, incentivavam o aprendizado da filha. Mas precisavam que ela ajudasse na renda familiar. Luislinda pescou marisco, costurou macacões para presidiários, lavou e passou fraldas. Aos 14 anos, perdeu a mãe. Conseguiu pagar um curso de datilografia e foi contratada como escrevente. De dia, trabalhava e cuidava dos irmãos; de noite, estudava. Com ajuda de um crédito educativo, formou-se em direito, aos 39 anos. Em 1984, começou a cumprir a promessa que havia feito ainda criança: tornou-se a primeira juíza negra do Brasil. E, em 1993, proferiu a primeira sentença contra a discriminação racial no país. Além disso, suas iniciativas para agilizar a Justiça, por meio de tribunais itinerantes que privilegiam a conciliação, foram reconhecidas internacionalmente. “O negro já se enxergou, mas ainda falta exigir justiça e educação continuada, para competir em pé de igualdade com o não negro”, afirma.
Vença também Racismo e discriminação são crimes. Se você for vítima, seja por causa da sua cor, origem, classe social, religião, sexo, condição física ou orientação sexual, preste queixa em uma delegacia ou por meio do Ministério Público. Ela pode dar origem a um processo para punir os responsáveis.
Uma chance para mudar
Ronaldo Monteiro, 52 anos, Rio de Janeiro
Ronaldo estava preso havia três anos quando recebeu uma visita inesperada: a vítima de um dos sequestros que ele havia planejado. “O senhor Custódio veio me perdoar. E voltou outras vezes. Até doou TVs, para que os internos tivessem acesso a programas de educação”, lembra. “Quando saí em liberdade condicional, ele me ofereceu um emprego com carteira assinada. Trabalhei com ele por dois anos”, completa. Essa oportunidade transformou não só a vida de Ronaldo, como a de centenas de outras pessoas. Ao perceber como era difícil para um ex-presidiário entrar no mercado de trabalho, em 2007 Ronaldo criou a Incubadora de Empreendimentos para Egressos (IEE). A organização não governamental oferece ajuda técnica, psicológica e financeira para que os internos possam planejar e, ao serem libertos, concretizar seus próprios empreendimentos. Mais de 425 iniciativas já foram para a frente, entre elas um salão de beleza, uma padaria e serviços de jardinagem e reciclagem. Dos presidiários libertos no Brasil, 70% reincidem no crime – segundo especialistas, em grande parte por falta de opções para se reintegrar à sociedade. Entre os apoiados pela IEE, o índice de recaídas é de apenas 1%. Nos próximos anos, o projeto deve ser ampliado do Rio de Janeiro para outros oito estados.
Vença também Para saber mais sobre a IEE, acesse www.iee-umachance.org.br. Outras organizações também atuam na promoção de iniciativas para empreendedores sociais e de baixa renda, como a Aliança Empreendedora e a Ashoka.

A partir da esquerda: Ricardo, Vinícius, Suerda e Victor
Felizes de novo
Família Reder, São Paulo
Victor olhou-se no espelho e pensou: “Eu sou um monstro!”. Aos 16 anos, havia acabado de ter um beijo roubado por um colega de trabalho. E gostou. Correu para o colo da mãe, Suerda: “Acho que sou bissexual!”. Ela fingiu compreensão: “Imagina, filho, você deve estar confuso, vai passar”. Não passou. Victor se apaixonou por outro garoto e começou a namorar escondido. Quando descobriu, a mãe perdeu a cabeça. Parou o carro no meio de uma estrada e saiu caminhando pela faixa, na tentativa de se matar. Quando voltou a si, foi para o hospital. Lá encontrou o marido, o metalúrgico Ricardo, e lhe contou a novidade. Ele acabou internado com uma crise de diabetes. Foi um longo ano até a família se entender. Para isso, contaram com o Grupo de Pais de Homossexuais, voltado para auxiliar quem passa por essa situação. “Só conversando com outras famílias entendi que amava meu filho independentemente da condição sexual dele”, conta Suerda. Hoje, Ricardo, que adora cozinhar, sempre pergunta a Victor se o seu namorado virá para o almoço de domingo. Vinícius, o filho mais velho, que já quis bater no namorado do irmão, tornou-se companheiro de balada. E, ao vencer o preconceito, os Reder voltaram a ser uma família feliz – mais do que nunca.
Vença também O Grupo de Pais de Homossexuais foi criado em São Paulo, em 1997, pela escritora Edith Modesto, com o objetivo de ajudar as famílias a entender e aceitar a orientação sexual de seus filhos. Hoje, atende cerca de 500 pessoas. Para mais informações, acesse www.gph.org.br.
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